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Os heróis negros do Time Brasil: conheça ícones que marcaram a história olímpica brasileira

De Berlim 1936 a Montreal 1976, histórias de coragem, superação e representatividade que atravessam gerações do esporte brasileiro

Por Comitê Olímpico do Brasil

21 de jul, 2026 às 15:45 | 4 min de leitura

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Imagens: divulgação acervo pessoal

Em 2026, o Movimento Olímpico celebra importantes marcos de sua história. Entre as efemérides que ganham destaque estão os 90 anos dos Jogos de Berlim 1936, os 70 anos de Melbourne 1956 e os 50 anos de Montreal 1976. Separadas por quatro décadas, essas edições têm um ponto em comum para o Brasil: foram palco de atuações marcantes de atletas negros que ajudaram a transformar o esporte nacional e deixaram um legado que atravessa gerações.

 

Da pioneira da natação Piedade Coutinho ao bicampeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva e ao recordista mundial João do Pulo, esses nomes simbolizam momentos decisivos da trajetória do Time Brasil. 

 

Piedade Coutinho: uma pioneira em Berlim 1936

 

Nascida no em 1920, no Rio de Janeiro, Piedade Coutinho surgiu na natação em um período em que as primeiras mulheres ainda encontravam pouca abertura para a prática esportiva no país. Impulsionada pelo pioneirismo de Maria Lenk, destacou-se rapidamente e, apenas um ano após iniciar os treinamentos, quebrou o recorde brasileiro dos 400m livre no Campeonato Brasileiro de 1935, resultado que lhe garantiu vaga nos Jogos Olímpicos de Berlim 1936.

 

Na capital alemã, alcançou resultados históricos. Foi oitava colocada nos 100m livre, então a melhor posição já obtida pela natação brasileira em Jogos Olímpicos, e terminou em quinto lugar nos 400m livre, estabelecendo um recorde sul-americano e conquistando a melhor colocação de uma brasileira na modalidade até aquele momento. Em um contexto marcado por desigualdades de gênero e raciais, seu desempenho a transformou em uma das pioneiras do esporte olímpico nacional.

 

Piedade Coutinho viveu um dos períodos mais promissores de sua carreira justamente quando os Jogos Olímpicos deixaram de ser realizados por causa da Segunda Guerra Mundial. Assim como Maria Lenk, que era apontada como uma das grandes esperanças de medalha do Brasil, a nadadora carioca reunia resultados que a credenciavam a sonhar com o pódio olímpico. 

 

Após interromper a carreira para se casar e ter um filho, retornou às competições em 1943, em uma decisão que desafiava os padrões sociais da época, que viam o esporte como incompatível com os papéis de mãe e esposa. A volta às piscinas prolongou uma trajetória vitoriosa que ainda a levaria aos Jogos de Londres 1948 e Helsinque 1952.

 

Piedade Coutinho foi a primeira finalista olímpica da natação brasileira, e teve os melhores resultados da natação feminina do país em Jogos até o aparecimento de Joanna Maranhão, em Atenas 2004, quando ficou em 5º lugar nos 400m medley. 

 

 

Adhemar Ferreira da Silva: o primeiro bicampeão olímpico do Brasil

 

Vinte anos depois de Berlim, outro atleta negro entraria definitivamente para a galeria dos maiores nomes da história do esporte brasileiro. Adhemar Ferreira da Silva disputou quatro edições dos Jogos Olímpicos, entre Londres 1948 e Roma 1960.

 

Filho de trabalhadores e criado em um bairro simples de São Paulo, Adhemar tinha um talento extraordinário no salto triplo, modalidade que realizou um feito que permaneceu incomparável por décadas: tornar-se o primeiro bicampeão olímpico brasileiro.

 

Adhemar conquistou o ouro em Helsinque 1952 e repetiu a façanha em Melbourne 1956, tornando-se uma das maiores estrelas do atletismo mundial. Além dos dois títulos olímpicos, quebrou cinco vezes o recorde mundial da modalidade e foi tricampeão dos Jogos Pan-Americanos. 

 

Mas sua importância ultrapassa as pistas. Em um período em que o Brasil ainda convivia com profundas desigualdades raciais, Adhemar se destacou também como intelectual, formando-se em Educação Física, Direito e Relações Públicas. 

 

Desde 2001, o Comitê Olímpico do Brasil concede, durante o Prêmio Brasil Olímpico, o Troféu Adhemar Ferreira da Silva, uma das mais importantes honrarias do esporte nacional. O Troféu reconhece atletas e ex-atletas que representam valores como ética, excelência, esportividade, respeito e companheirismo.

 

Hoje, seu nome está eternizado tanto no Hall da Fama do COB quanto na memória coletiva do esporte brasileiro, simbolizando uma geração que mostrou ao mundo que o Brasil podia competir em nível de igualdade com as maiores potências olímpicas. 

 

João do Pulo: o homem que saltou para a eternidade

 

Se Adhemar abriu o caminho, João Carlos de Oliveira levou o atletismo brasileiro a outro patamar.

 

Conhecido mundialmente como João do Pulo, o atleta de Pindamonhangaba se tornou um fenômeno nos anos 1970. Sua consagração veio em 1975, quando estabeleceu o impressionante recorde mundial de 17,89m no salto triplo durante os Jogos Pan-Americanos da Cidade do México. A marca foi tão extraordinária que superou o recorde anterior em 45 centímetros, uma diferença considerada enorme para provas de alto rendimento, e permaneceu como recorde mundial por uma década. 

 

João conquistou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Montreal 1976, onde também teve a honra de carregar a bandeira brasileira na cerimônia de abertura. Quatro anos depois, em Moscou 1980, voltou ao pódio olímpico com outro bronze em uma competição cercada por controvérsias envolvendo a arbitragem. 

 

Em 1982, uma tragédia interrompeu precocemente sua carreira quando um grave acidente automobilístico resultou na amputação de sua perna direita. Em reconhecimento ao impacto de seu legado, João do Pulo passou a integrar o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, perpetuando sua contribuição para a história nacional.

 

Legados que atravessam gerações

Separados por décadas, Piedade Coutinho, Adhemar Ferreira da Silva e João do Pulo representaram o Brasil em momentos distintos da história, enfrentaram desafios sociais, raciais e estruturais e mostraram que o talento brasileiro podia alcançar os lugares mais altos do pódio olímpico. 

 

Esta é a primeira reportagem de uma série especial que, nas próximas semanas, revisitará personagens e momentos marcantes da história olímpica brasileira, celebrando também os 30 anos dos Jogos de Atlanta 1996 e os 10 anos dos Jogos Rio 2016, marcos que ajudaram a moldar o legado do Time Brasil.

 

 

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