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Milão-Cortina

“O momento da minha vida”: a jornada de superação de Bruna Moura até o sonho olímpico

Entre montanhas, quedas e recomeços, esquiadora brasileira relata trajetória marcada por coragem, persistência e propósito

Por Comitê Olímpico do Brasil

12 de fev, 2026 às 02:30 | 6 minutos de leitura

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Gabriel Heusi/COB

Gabriel Heusi/COB

“Agora eu sou oficialmente uma atleta olímpica”. A frase dita por Bruna Moura logo após cruzar a linha de chegada do sprint livre em Milão-Cortina 2026 carrega mais do que a realização de um sonho antigo. Ela resume uma jornada marcada por cirurgia cardíaca, acidente de carro a caminho dos Jogos Olímpicos de Inverno Pequim 2022, meses sem andar, reabilitação longa, uma toxoplasmose com perda parcial da visão e um processo psicológico intenso. Ainda assim, a esquiadora do cross-country nunca soltou o que ela chama de seu “balãozinho”.
 

A história começa antes da neve. Entre 2010 e 2011, Bruna vivia um ano promissor no mountain bike e mirava os Jogos Olímpicos Rio 2016. “O meu maior objetivo era realmente me tornar uma atleta olímpica”, lembra. Mas, em 2011, um problema cardíaco a tirou do esporte por dois anos. A cirurgia veio em 2013 e, com ela, a chance de recomeçar.

Foi nesse período que surgiu a oportunidade de migrar para o esqui cross-country, modalidade com a qual ela já tinha tido contato anteriormente. Ali, Bruna encontrou um novo caminho para o mesmo sonho. Com planejamento e foco, passou a mirar a classificação para Pequim 2022. Mas com a vaga garantida, no dia em que foi anunciada pelo Comitê Olímpico do Brasil como parte da equipe olímpica, testou positivo para Covid-19 e precisou entrar em quarentena. A viagem foi adiada e, quando recebeu liberação para sair, embarcou de van rumo ao aeroporto de Munique. No norte da Itália, o veículo sofreu um grave acidente.
 

“Eu passei dois meses sem andar. Depois, um ano e meio de fisioterapia. Ainda sigo com trabalho psicológico”, conta. As fraturas e lesões a afastaram das pistas, mas não do objetivo. “Desde o primeiro dia, eu dizia para mim mesma e para as pessoas à minha volta que eu iria me classificar para 2026”.
 

O caminho ainda reservava novos obstáculos. Após retomar as competições, Bruna precisou interromper a temporada 2024/2025 por causa de uma toxoplasmose severa. Foram sete semanas de tratamento intenso para não perder a visão. Ela preservou parte, mas ficou com sequelas no olho direito. Pouco depois, enfrentou a perda de uma grande amiga.
 

“Eu sabia que, se eu quisesse realmente me classificar para 2026, eu precisava vencer tudo isso. Precisava reencontrar meu foco”, diz.

Gabriel Heusi/COB

O dia da prova que a consagrou como atleta olímpica foi vivido com um misto de alegria e incredulidade. “Eu só conseguia sorrir. Abri os braços e aproveitei o momento. Meu aquecimento nem foi como minha treinadora gostaria, mas eu estava muito feliz”, conta.
 

Primeira atleta brasileira a competir em Milão-Cortina 2026, no dia 10 de fevereiro, Bruna quase não conteve a emoção antes da prova. “Eu me segurei muito para não chorar. Minhas pernas estavam tremendo. Eu larguei numa felicidade absurda”. Ao avistar a reta final, a preocupação era uma só: terminar a prova. “Eu falei: Você tem que chegar na linha de chegada (…) Não me importo com o resultado. Aquilo ali foi o momento da minha vida".
 

Hoje, Bruna tenta responder às centenas de mensagens que recebe diariamente depois que sua história veio à tona com a participação olímpica. Ela nem sempre consegue, mas garante que lê todas. “A minha gratidão é imensa. Eu ainda estou tentando entender tudo isso que está acontecendo. Espero que este seja realmente um momento de inspiração para as pessoas (...) Se você não desistir, uma hora você consegue. Eu estou com meu balãozinho. E estou feliz pra caramba”.
 

O “balãozinho” que ela menciona ao falar do sonho olímpico faz referência a um sonho que teve em 2013, no auge de um período de depressão, quando ainda estava afastada do esporte. No sonho, Bruna corria e escalava montanhas tentando alcançar um balão que o vento sempre levava para mais longe. Pensou em desistir, até que encontrou forças para continuar. Desde então, ela passou a chamar seus objetivos de “balões”, algo que exige esforço e persistência para ser alcançado. E o balão virou tatuagem, marcado na pele da atleta olímpica.
 

Bruna Moura volta a competir nesta quinta-feira, 12, na prova de 10km do esqui cross-country. O sonho olímpico ainda se estende até o dia 18, quando disputa o sprint livre por equipes, com Eduarda Ribera. A atleta, que desfilou na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina, fica ainda para a cerimônia de encerramento, que acontecerá em Verona, no dia 22 de fevereiro, fechando com chave de ouro uma participação que vale mais do que qualquer medalha.

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